Por Ernesto Spinak

Foto: SciELO.

Foto: SciELO.

Academia.edu é uma rede social para acadêmicos bem conhecida, criada em 2008, que atualmente declara ter mais de 30 milhões de usuários registrados. A plataforma é usada para compartilhar trabalhos de pesquisa, monitorar seu impacto e dar seguimento a qualquer pesquisa em uma determinada área de especialização. Seu repositório contém mais de 8 milhões de trabalhos em texto completo publicados em acesso aberto (AA) e recebe 36 milhões de visitantes por mês.

No mês de abril de 2015 uma pesquisa realizada por seis funcionários da Academia.edu e da companhia consultora Polynumeral1, sobre o crescimento de citações que recebiam as publicações de pesquisa que eram depositadas em seu repertorio de acesso aberto, foi distribuída aos 20 milhões de usuários registrados em seu Website, informando que os trabalhos lá depositados aumentaram as citações recebidas em 83% no prazo de cinco anos.

Este trabalho faz surgir ao menos duas perguntas:

  • Existe realmente uma relação positiva entre AA e o aumento das citações ao longo do tempo?
  • Porque é que havendo tantos sites similares que funcionam como repositórios, o aumento que reporta edu é tão impressionante?

A razão pela qual se espera que o AA tenha como consequência mais citações é embasada em três postulados:

  • Os artigos em AA são más fáceis de obter, são mais fáceis de ler e de citar.
  • Em muitos casos são publicados online antes da publicação formal, então têm mais tempo a favor para serem citados que sua versão comercial.
  • Se os autores de destaque publicaram em AA seus melhores artigos, então estes artigos teriam um viés a favor em relação aos artigos por assinatura.

Para provar a veracidade destes postulados, na década passada na qual o movimento de AA tomou impulso, foram publicados muitíssimos trabalhos que analisaram a existência de correlação entre AA e citações. Um repertório muito interessante foi recentemente compilado por Scholarly Publishing and Academic Resources (SPARC Europe)2 sobre este tema, e apresenta 70 pesquisas, das quais 46 apresentam evidências de vantagem no aumento de citações, e nas outras 24 os resultados são negativos ou não são significativos.

De modo que o trabalho publicado pela Academia.edu não deveria ser surpreendente, entretanto,os resultados sim o são. É interessante que este artigo, que foi publicado já faz cerca de um ano, não tenha recebido quase nenhuma menção de outros trabalhos. Uma busca no Google e Google Scholar apenas obtém documentos que o mencionam, com exceção de um trabalho publicado por Phil Davis no blog The Scholarly Kitchen, que faz uma análise crítica dos resultados, “Citation Boost or Bad Data? Academia.edu Research Under Scrutiny”3.

A principal crítica, respaldada também nos 35 comentários que se seguiram, tem a ver com o modelo do experimento, a saber, não foi usado um grupo de controle aleatório (randomized control group) que fosse similar em todos os aspectos à amostra estudada. Por exemplo, no grupo de controle havia editoriais, correções, notas de retratação, cartas ao editor, book reviews, obituários, etc., que não estavam presentes na amostra analisada. A conclusão da primeira versão do artigo de Phil Davis é que “o grande impulso das citações na Academia.edu poderia não ter nada a ver com o acesso aberto, porém totalmente explicável por [uso de] dados não adequados”.

Então, os autores do trabalho da Academia.edu publicaram em 7 de julho uma nota onde procuram esclarecer as diferenças com Phil Davis, ”Academia.edu, Citations, and Open Science in Action” 4, o que motivou Phil Davis a acrescentar um addendum a seu artigo com data de 18 de agosto, onde informa que os resultados originais publicados pela Academia.edu que relatavam um aumento de 83% haviam sido reduzidos a 73%, que é o que atualmente informa o Website da Academia.edu.

Porém, pouco acima ou abaixo da taxa de aumento (73%, 83%, ou qualquer que seja), a pergunta é como explicam que a Academia.edu obtenha estes resultados que são muitíssimo maiores que seus competidores, maiores e com mais anos de funcionamento, como: PubMed Central, arXiv, ResearchGate, Mendeley, que reportam valores ao redor de 3% de crescimento. Os autores do trabalho da Academia.edu assinalam que na realidade não é o AA que está pressionando os resultados de citações, porém os serviços associados que eles prestam e a facilidade de recuperação dos trabalhos (discoverability), notificando aos usuários todas as novidades que são publicadas em seu repositório. Porém… todos os serviços similares fazem o mesmo… incluindo os periódicos em forma individual a seus assinantes.

Então, seria a Academia.edu tão grande com um peso proporcional de mercado (market share) tão importante em relação a seus competidores? Se nos atemos a uma pesquisa publicada na Natureem 20145, apenas 29% dos cientistas e engenheiros consultados sabiam da existência daAcademia.edu e apenas 5% visitavam-na regularmente, comparado aos 88% e 29% para o ResearchGate, respectivamente, tendo as ciências sociais mais participação na Academia.edu que as outras disciplinas, denominadas “ciências duras”. A maior parte das respostas na área de ciências sociais indicou que a razão para se registrar nestes serviços era para manter sua presença com um perfil profissional.

Minha reflexão

A maioria dos estudos publicados mostra, de maneira inequívoca, que o AA aumenta o uso dos artigos (downloads, tweets, likes). O SciELO é um bom exemplo – a coleção Brasil recebe mais de 700 mil downloads por dia. Porém, isso não significa que o aumento no uso se traduza de forma direta em aumento de citações.

Como diz David Crotty, um dos comentaristas do artigo de Phil Davis,

O AA não aumenta muito o acesso aos pesquisadores ativos em um determinado campo da ciência, porém expande o acesso a um grande espectro de leitores fora desta comunidade formal de pesquisa selecionada. Este é um dos grandes benefícios do AA, colocar as publicações nas mãos de pessoas como médicos clínicos, tomadores de decisão, políticos, cidadãos comuns. Este uso não se reflete em citações, porque toda essa gente não publica pesquisas. Porém, dentro de uma comunidade de pesquisadores em uma certa área, que já dispõe de bom acesso à maioria dos periódicos de sua especialidade, até o presente momento não há diferenças suficientes mensuráveis.

O que dizer então da taxa de 73%? Não sei, let it be.

Notas

1. NIYAZOV, Y., et al. Open Access Meets Discoverability: Citations to Articles Posted to Academia.edu. Academia.edu. 1995, 39p. Available from:http://www.academia.edu/12297791/Open_Access_Meets_Discoverability_Citations_to_Articles_ Posted_to_Academia.edu

2. The open access citation advantage: list of studies and results to date. SPARC Europe. 2015. Available from: http://sparceurope.org/wp-content/uploads/2015/01/open-access-citation-advantage.xlsx

3. DAVIS, P. Citation Boost or Bad Data? Academia.edu Research Under Scrutiny. The scholarly kitchen. [viewed 08 January 2016]. Available from:http://scholarlykitchen.sspnet.org/2015/05/18/citation-boost-or-bad-data-academia-edu-research-under-scrutiny/

4. NIYAZOV, Y., et al. Academia.edu, Citations, and Open Science in Action. Academia.edu. 2015. Available from: http://medium.com/@academia/academia-edu-citations-and-open-science-in-action-4a24a6376573#.q15h1bu7g

5. VAN NOORDEN, R. Online collaboration: Scientists and the social network. Nature. 2014, vol. 512, nº 7513. pp. 126-129. DOI: 10.1038/512126a

Referências

DAVIS, P. Citation Boost or Bad Data? Academia.edu Research Under Scrutiny. The scholarly kitchen. [viewed 08 January 2016]. Available from:http://scholarlykitchen.sspnet.org/2015/05/18/citation-boost-or-bad-data-academia-edu-research-under-scrutiny/

NIYAZOV, Y., et al. Academia.edu, Citations, and Open Science in Action. Academia.edu. 2015. Available from: http://medium.com/@academia/academia-edu-citations-and-open-science-in-action-4a24a6376573#.q15h1bu7g

NIYAZOV, Y., et al. Open Access Meets Discoverability: Citations to Articles Posted to Academia.edu. Academia.edu. 1995, 39p. Available from:http://www.academia.edu/12297791/Open_Access_Meets_Discoverability_Citations_to_Articles_ Posted_to_Academia.edu

The open access citation advantage: list of studies and results to date. SPARC Europe. 2015. Available from: http://sparceurope.org/wp-content/uploads/2015/01/open-access-citation-advantage.xlsx

VAN NOORDEN, R. Online collaboration: Scientists and the social network. Nature. 2014, vol. 512, nº 7513. pp. 126-129. DOI: 10.1038/512126a

Links externos

Academia.edu – <http://www.academia.edu/>

Polynumeral – <http://www.polynumeral.com/>

spinakSobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado em Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

 

Traduzido do original em espanhol por Lilian Nassi-Calò.

 

SPINAK, E. Seu artigo terá mais citações se publicado em Acesso Aberto?. SciELO em Perspectiva. [viewed 04 February 2016]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2016/01/21/seu-artigo-tera-mais-citacoes-se-publicado-em-acesso-aberto/

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