Talvez a questão não seja sobre literatura, mas sim como nossa sociedade vive e ilusiona viver. O novo leitor não quer apenas tocar a mente com palavras, mas aquecer o coração com o personagem que sempre sonhou ser.
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Sem dados precisos, mas acompanhando o mercado do qual consumo avidamente, o hábito de leitura tem se perpetuado entre os brasileiros. Apesar de não tirar nenhum record dos ingleses, houve um considerável crescimento no número de traduções e escritores brasileiros sendo publicados, e felizmente, conseguindo alcançar o sucesso.

Com o advento das redes sociais, onde todos têm voz, tenho sentido cada vez mais o clamor daqueles que defendem os clássicos e a boa literatura, jogando no lixo mais próximo os bestsellers e aqueles que consomem com alegria livros de baixa categoria. E essas não são minhas palavras, a classe que um livro pertence tem ficado cada dia mais claro para aqueles que acreditam possuir um gosto apurado.

Faz alguns meses que fui num debate sobre literatura na minha região, o Vale do Paraíba. O esquema era aquele conhecido por muitos: uma banca com um moderador e o público enviava perguntas. Num papel escrevi a questão “Existe livro bom e livro ruim?”. Todas as perguntas foram respondidas, menos a minha.

Pode parecer algo sensato essa recusa pela minha questão, já que se trata de um assunto complexo e controverso, mas durante todo o debate deixou-se bem claro a opinião da banca sobre: alguns residiam na plenitude e conforto da poltrona em cima do muro, outros acreditavam que o “dom” de escrever era divino, portanto aqueles que escreviam livros “menores” não mereciam menção.

Austen, Dickens, Tolstoi, Eliot, Joyce, Hemingway, Lawrence e Fitzgerald. Guimarães Rosa, Machado de Assis, Castro Alves, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Lya Luft e Carlos Drummond de Andrade. Alguns nomes que são “diamantes para a mente”, mas muito desconsideram um fator: nos últimos cem anos nós consumimos livros, literalmente. Saciamos a fome por conhecimento e matamos a sede do vínculo emocional com personagens que vivem em páginas.

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Em Loving Literature: A Cultural History, de Deidre Shauna Lynch, que leciona inglês em Harvard, a literatura pura e simplesmente para fins intelectuais sempre foi a constante, uma realidade que sofreu uma catastrófica mudança entre 1750 e 1850.

Até então ninguém lia poemas para preencher o vazio da alma, mas sim para trabalhar o vocabulário, cadência e dar boas cantadas. Segundo Lynch, quando alguém diz que gosta de Fitzgerald ou Austen, estamos encontrando uma nova modalidade de leitor, aqueles que tentam transpor a ponte entre si, o autor e o personagem.

E quando chegamos no fim desta ponte, temos um novo tipo de monstro: o leitor que ama seu livro. Ele sente tristeza quando está no último capítulo daquele livro que dedilhou lentamente como um viciado raciona sua última porção de droga ou passa uma madrugada acordado, devorando loucamente aquelas quatrocentas páginas.

Então quando pergunto para um crítico sobre a boa literatura, ele provavelmente me dará uma lista de características sobre uma obra, mas quando questiono um leitor, ele irá me narrar sensações. Vai falar sobre o cheiro do livro, sobre como aquele personagem fez com que a vida fosse mais interessante, como sonha com um amor igual aquele ou como chorou por dez páginas sem parar quando alguém morreu.

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Para Schopenhauer “a arte de não ler é de máxima importância”, um ponto que o filósofo deixa bem claro em toda a sua obra, A arte de escrever. Seu repúdio supera o limite da literatura ruim do princípio de 1800, mas ele acredita que livros de sucesso, com grande tiragem, já possuem algo que indica sua qualidade: a massa, a plebe, que tudo suja como moscas no verão, não podem consumir nada que seja digno de nota.

Apesar de amar Schopehauer, minha opinião diverge muito nesse aspecto, mas acredito que num ponto ele acertou: os grandes sucessos refletem os gostos, realidade e amores da grande maioria. É a regra que levanta número exorbitantes no The New York Times, a exceção tem alcançado números mais significativos, mas ainda não supera 50 Tons de Cinza.

E este, o livro que deixou os cults de cabelos em pé ou escorridos devido à oleosidade do conteúdo, dedico o exemplo.

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(O fenômeno mundial)

O pornô para mamães reflete sim o machismo que estamos habituados todos os dias. A mulher que foi ensinada a acreditar que ser estapeada na face é normal vai achar incrivelmente romântico quando um homem lindo, rico, poderoso e que chega a ser psicótico pelo seu controle, resolve lhe dar tapas com um fundo pouco convincente de amor. A crítica irá fatiar e jogar no lixo, mas para as milhões de mulheres que consumiram – e consomem – esse tipo de literatura, Mr. Gray é o que existe de melhor no mundo. E a culpa não é delas, é do meio em que foram criadas, onde a normalização de violência e dos relacionamentos abusivos é constante.

Talvez a questão não seja sobre a literatura boa ou ruim, mas sim como nossa sociedade vive e ilusiona viver.

Nem todos habitam o mundo onde um grande mergulho em águas densas de conteúdo supre a necessidade de passar um bom tempo lendo. Hoje nós lemos para esquecer dos problemas. Assim como milhões de pais colocam Galinha Pintadinha para seus filhos silenciarem, nós colocamos literatura de banca e aventuras em 24 horas para diminuir o volume sórdido de uma rotina de insatisfações.

Um dos termos atuais para Cultura é o enriquecimento individual. Falamos que alguém possuí cultura como um elogio, como se cultura não fosse um conceito que reúne diversos aspectos, seja ouro ou lixo. E seguindo a mesma amplitude, é impossível designar literatura boa ou ruim quando ela está flutuando no mesmo barco que a palavra cultura.

Então, num mundo paralelo onde pegaria meu papel, a pergunta seria outra. Existem livros com revisões terríveis, histórias pouco originais e tantos outros aspectos que tornam uma obra pobre, mas a experiência que o leitor terá depende de tantos outros fatores, ainda mais quando analisamos a realidade do dedo que acaricia a página.

Entre Lolita e 50 Tons de Cinza mora um grande abismo, uma lista para os críticos e um pulso para os leitores que suspiram de amor por ambos.

Um abismo que aconchega o coração do leitor.


Fonte: http://lounge.obviousmag.org/nao_mataras/2015/03/existe-livro-bom-e-livro-ruim.html

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