Capa da primeira edição do livro "Dr. No"(O Satânico Dr. No), de Ian Fleming (1958). Cópia assinada pelo autor vale U$$ 14,5 mil Reprodução Toda semana, Howard Pitkin enfrenta até cinco horas de fila para conseguir uma assinatura de um autor que esteja lançando livro nos Estados Unidos. Sobretudo em Nova York, onde há sessões de autógrafos abundantes.

Depois, quando volta para sua loja, em South Windsor (Connecticut, EUA), ele cataloga e põe o exemplar à venda a preços mais salgados.

Pitkin tem outro emprego (prefere não revelar qual). Faz o bico para ganhar um extra e cultivar o gosto pela literatura. Mas não é qualquer livro que interessa. Depende do alcance do autor e do gênero.

Títulos de mistério, por exemplo, vendem bem. Por isso, ele comprou um exemplar de “Blood Always Tells” (algo como “o sangue sempre denuncia”) por cerca de US$ 17 (R$ 60) para revender com a assinatura da autora, Hilary Davidson, a US$ 30 (R$ 105).

A internet ajudou a inflacionar a “bolsa de autógrafos” na qual Pitkin se especializou.

“É um mercado multimilionário. Não tão grande quanto a indústria da arte, mas significativo”, avalia o livreiro Joshua Mann, 31. Nem ele nem outros especialistas consultados pela Folha souberam dizer qual o montante movimentado por ano no setor.

O comércio desses artigos começou no final do século 17 e chegou aos Estados Unidos no século 19, diz Ruth-Ellen St. Onge, pesquisadora da Escola de Livros Raros (Universidade de Virginia). “Era a era de ouro dos livros raros.”

Nos anos 2000, a internet mudou tudo, facilitando o comércio e o intercâmbio entre colecionadores. Amadores entraram para o ramo, vendedores tradicionais saíram, as ofertas se multiplicaram. O que valia pouco (como algo de literatura moderna com várias cópias autografadas) passou a valer ainda menos. Em compensação, o que era ouro virou platina –caso do livro comprovadamente raro.

Para sobreviver, é preciso ter credibilidade. É nisso que aposta Charles Agvent, 61. No ramo desde 1987, ele se diz lesado pelas hordas que passaram a fazer o mesmo que ele sem nenhuma instrução. “Roubam descrições de livros, mesmo que imprecisas, e instalam o caos”, reclama.

Para ele, tal “amadorismo” perpetua erros elementares, como dados de impressão e edição copiados e reproduzidos sem checagem apurada.

COBIÇADOS

Seja como for, a demanda é grande. Não são raros os dias em que há duas sessões de autógrafos em Nova York na rede de livrarias Barnes & Nobles. “Eu me sinto lisonjeada”, conta Davidson, de “Blood Always Tells”. “Mas claro que prefiro que as pessoas leiam o livro do que só o colecionem ou revendam.”

Quando leitores chegam com sacolas repletas de exemplares, a escritora logo suspeita. Muitos impõem regras: a assinatura não pode ser personalizada nem datada. Desvaloriza a revenda.

Para nomes consagrados, outros critérios entram em jogo. A morte do autor ou a conquista de um prêmio elevam o ibope da dedicatória. Primeiras edições, cópias raras e anotações originais, mais ainda.

Mesmo supostos erros de impressão podem ajudar. A supressão de trechos em seis páginas de “Go Set a Watchman” (“Vá, Coloque um Vigia”), de Harper Lee –que vendeu 1,1 milhão de cópias numa semana nos EUA– fez um exemplar saltar de US$ 20 (R$ 70) para US$ 956 (R$ 3.323).

O primeiro exemplar da primeira impressão da primeira edição de “O Sol Também se Levanta”, autografado por Ernest Hemingway, sai por US$ 195 mil (R$ 678 mil) no site AbeBooks. Um exemplar novo, a menos de US$ 10 (R$ 35).

No mesmo site, há seis exemplares disponíveis de uma edição limitada a 150 cópias de “Fiesta Melons”, de Sylvia Plath, com ilustração da própria e introdução de seu ex-marido, o poeta inglês Ted Hughes –que muitos acusam de ter motivado seu suicídio.

Um dos livros assinados por Hughes vale US$ 1.045,16 (R$ 3.630), contra US$ 385,90 (R$ 1.341) de outro sem inscrição.

Outra preciosidade: o exemplar da edição inaugural de “Orlando” que Virginia Woolf dedicou à irmã (“Vanessa/ De sua escrava e irmã”), por US$ 325 mil (R$ 1.127).

Nem todos encaram as filas para autógrafo como um negócio, contudo. “Vender? Por nenhum dinheiro nesse mundo”, disse, há alguns dias, uma adolescente emocionada com a dedicatória da autora e atriz Candance Bure (da série “Full House”, exibida nos anos 1980-90) no livro em mãos.

Fonte: Livros Só Mudam Pessoas

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