Conheça a editora que recria manuscritos medievais e renascentistas

A editora espanhola do Señor Manuel Moleiro começou suas atividades no início dos anos 90. Porém, não se trata de uma simples editora. Seus projetos ambiciosos aspiram a nada menos do que a perfeição, que é magistralmente aplicada na criação de fac-símiles, ou seja, reproduções perfeitas dos mais renomados documentos antigos, principalmente do século X ao século XVI. Dentre eles, figuram diversos mapas e atlas, livros bíblicos e de horas (livros litúrgicos destinados aos laicos, para que possam seguir as diversas orações e liturgias correspondentes a cada hora do dia e do ano), além de tratados de medicina e botânica. Certamente o objeto de sonho dos apaixonados por História, arte e livros.

Splendor Solis, manuscrito de 1582.

Breviário de Isabel, a Católica.

Mapa do Atlas Vallard representando o Brasil.

Tratactus de Herbis, tratado de botânica de 1440.

Tratactus de Herbis, tratado de botânica de 1440.

A editora realiza sua “mágica” com a ajuda de 75 colaboradores, através de cinco etapas. Primeiramente, a Moleiro consegue a autorização para fotografar cuidadosa e detalhadamente cada uma das páginas do manuscrito em questão, geralmente abrigado nas maiores bibliotecas e museus do planeta, tais como a Bibliothèque nationale de France, a British Library ou ainda o Metropolitan Museum of Art. Em seguida, o livro passa por uma fase de pré-impressão, para depois ser cuidadosamente avaliado e corrigido. Finalmente, são impressas 987 cópias e suas folhas são encadernadas usando as mesmas técnicas da época na qual o manuscrito original foi encadernado, para assim obter exatamente a mesma aparência interna e externa da obra original. Inclusive, o proprietário da editora participa ativamente das etapas de criação, principalmente da primeira e da terceira.

Detalhe do fecho do Livro de Horas de Henrique VIII.

O aroma, a textura e até mesmo o cheiro, as imperfeições e as manchas causadas pela ação do tempo são reproduzidos. Os fac-símiles que possuem iluminuras – ilustrações – com folhas de ouro nos originais, também recebem a aplicação desse material nos locais devidos. Como a editora mesmo prega, trata-se de “quase-originais”.

Anunciação do Livro de Horas de Henrique VIII.

Todo esse processo leva cerca de dois anos para ser completado. Porém, no caso de manuscritos mais longos e mais complexos, a criação dos fac-símiles pode levar mais tempo, como por exemplo, no caso da Bíblia de São Luís, que possui 1230 páginas e levou longos 7 anos para ser reproduzida. Ou seja, são verdadeiras peças artesanais criadas com extremo cuidado.

Bíblia de São Luís.

Como já foi dito anteriormente, os livros são produzidos em edições únicas limitadas a 987 exemplares numerados. A quantidade, bem específica, faz alusão ao número 7 como símbolo da perfeição, conceito adotado e colocado em prática pela editora. São verdadeiros objetos de coleção, que contam cada um deles com um certificado de autenticidade registrado em cartório.

Tanta exclusividade e perfeição, claramente tem um preço, que varia, dependendo do manuscrito ou do mapa, de algumas centenas de euros a 20.000 euros (cerca de 64.000 reais) por cada exemplar.

Iluminura representando a rainha Ana da Bretanha rezando na companhia de três santas, presente nas Grandes Horas de Ana da Bretanha, fac-símile vendido por 11.925 euros (cerca de 38.000 reais).

Graças a sua excelência (e preço elevado) a Moleiro atrai uma clientela que está habituada com esse conceito. Figuram dentre seus maiores clientes nomes como João Paulo II, José Saramago, George W. Bush e o rei Juan Carlos I da Espanha. Claramente, esses personagens ricos e poderosíssimos poderiam se dar ao luxo de ter em casa (ou em cofres) manuscritos antigos originais, mas, alguns dos mais importantes já escritos se encontram em coleções de museus e bibliotecas públicas, e, portanto, não podem ser ou não seriam vendidos.

Vale destacar a função de preservação do patrimônio cultural que indiretamente é exercida pela editora na produção dos fac-símiles. Imaginem se uma dessas bibliotecas ou museus onde se encontram os originais é incendiado, inundado (como aconteceu na Bibliotheque nationale de France recentemente) ou a obra é roubada. Se alguma delas fosse destruída ou parcialmente perdida por um infeliz acaso, ainda existiriam cópias perfeitas que permitiriam a preservação e restauração de seu rico conteúdo.

Além do certificado registrado em cartório, os felizes compradores recebem junto a sua cópia do manuscrito, um livro de comentários – disponível em francês, inglês e espanhol – escrito por especialistas, frequentemente contando com a participação do próprio curador do museu ou biblioteca onde se encontra o original, o que possibilita um maior entendimento da joia adquirida. Esse trabalho aprofundado de pesquisa, além de proporcionar conhecimento aos seus compradores, também é importantíssimo no campo da pesquisa, pois no caso de alguns dos manuscritos, trata-se de um trabalho inovador e pioneiro no estudo destes.

Vale de dizer que o livro de comentários em si, já é lindo e muitíssimo atraente a qualquer leitor e colecionador ávido por belos exemplares. São livros em capa dura, cheios de belas ilustrações e detalhes tirados do exemplar original, que completam a obra e são um espetáculo por si só.

conheca

Para aqueles que já estavam tentando pesquisar onde comprar pelo menos os livros de comentários aqui no Brasil, trago a infeliz notícia de que, normalmente, esses exemplares não são vendidos separadamente dos fac-símiles. Porém, descobri que se o fac-símile estiver esgotado e alguns livros de estudo ainda restarem no estoque, a editora pode sim, vende-los. É possível consultar os livros disponíveis no site da editora www.moleiro.com(também em português). Os preços variam: o livro de estudo do Martirológo de Usuardo – que parece ser lindo – custa 150 euros (cerca de 480 reais), enquanto que aquele do Mapa-múndi Catalão, por exemplo, está disponível por 250 euros (cerca de 800 reais).

Bibliografia/Fontes :

Michel BONEL, « La quête de la perfection » in Tribune de Genève, (julho-agosto 2011), p. 30-31.

Henry BONNIER, « L’art et la perfection » in Politique Magazine, No 109 (juillet 2008), p.46-47.

Philippe Dagen, «Les Grands heures d’Anne de Bretagne pour 11.925 euros » in Le monde, No 20283 (20 de abril de 2010).

Mélina GAZSI, “A Barcelone, grimoires et parchemins ressuscités” in Le Monde, (19 de novembro de 2011).

Michael KNIPE, « The art of perfection » in The Times, (23 de abril de 2011).

Gilles LAPOUGE, « L’énigme de l’atlas dieppois » in Magazine GEO Histoire, p. 104-111.

Monica MIRÓ, « Cloner des ouvrages du Moyen-Âge ou de la Renaissance » in Le Rotarien, (fevereiro 2013), p. 39-43.

Margot MOLINA, « Códices que se pueden tocar » in El País, (10 de maio de 2012).

Véronique PRAT, « Trésors cachés des grands bibliothèques » in Le Figaro Magazine, (14 de janeiro de 2012), p.64-68.

« A literary favour to world culture” in The Tmes, (23 de abril de 2002).

Revisado por: Pedro Dalboni

Texto elaborado por Aline Pascholati

Fonte: Literatortura

2 comentários sobre “Conheça a editora que recria manuscritos medievais e renascentistas

  1. Olá, esse texto foi escrito por mim e publicado no Literatortura. Você poderiam colocar ao final o início do post o meu nome como autor? A página do site original não mais existe, e, portanto, não é possível ver meu nome como autor em lugar algum. Obrigada!

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