Mortes pairam sobre todos em Guerra dos Tronos, obra de George R.R. Martin, mas elas destoam daquelas justas que marcam boa parte da ficção.

CS 66 25th October 2010

Conseguimos a proeza de simultaneamente ocultar a morte e transformá-la em espetáculo.  Ao mesmo tempo em que mortes violentas abundam em noticiários e na ficção em geral, formas mais serenas e plausíveis de falecimento, como as ocorridas por doença e velhice, são retiradas de cena. Esta aparente contradição se dá porque o morrer não dispõe de faceta única.

O sociólogo José Carlos Rodrigues comenta sobre a espécie de morte que ganha visibilidade em nosso cotidiano:

“Contra a ideia de silêncio’, os meios de comunicação nos dão a impressão de um imenso barulho, de um intenso falar sobre a morte. Mas que morte é essa, que povoa os meios de comunicação? São mortes normais, do dia-a-dia, do próximo, daquele com quem temos alguma coisa a ver? São mortes que despertem o pânico, que coloquem explicitamente uma fronteira entre o aqui e o além, que evoquem o drama da finitude humana? São mortes que impliquem um ritual, que questionem o homem no mais fundo de sua existência? – Não. Simplesmente são mortes que ocorrem sobre a tela da televisão, sobre o papel do jornal, incapazes de perturbar o ritmo de nosso jantar ou o sabor de nosso café da manhã. São mortes que não evocam a decomposição, que não nos colocam diante de um impasse escatológico, que não transformam as relações sociais. São mortes excepcionais, pouco prováveis, violentas, acidentais, catastróficas, criminosas, ou que atingem pessoas importantes e excepcionais. Em suma: não são mortes.”

O morrer atípico monopoliza as páginas dos jornais e predomina na ficção que consumimos.

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Nas obras tradicionais, a morte tende a ser punitiva, fazendo com que a justiça se realize. Como menciona Sissa Jacoby a respeito de sua função e de sua escassez na literatura: “O tema da morte encontra-se praticamente ausente da literatura infantil, aparecendo com um pouco mais de freqüência nos textos destinados aos adolescentes, ainda que, na maioria dos casos, obedecendo ao clichê da justiça final com a morte do vilão ou de uma personagem ‘merecedora de castigo’”.

Contudo, entre o extremo negado porque nos perturbaria, trazendo nossa finitude à tona, e seu congênere de aparição diária, existe um caminho do meio. É justamente por esta via intermediária que George R. R. Martin traça sua épica narrativa Guerra dos Tronos. Nela, a morte paira sobre todos, não considera somente personagens vis merecedores de seu abraço. De fato, a devassidão a consome, deseja enlaçar-se indiscriminadamente; não é a moralidade duvidosa que lhe atrai. Em resumo, seus critérios destoam do costumeiro na ficção.

É justamente esse um dos traços mais marcantes na literatura de Martin, a imprevisibilidade das vidas que serão ceifadas. Não dispomos das garantias convencionais de que os personagens bons sobreviverão até o final, tampouco de que a vilania, cedo ou tarde, será punida com o extermínio.

Obviamente a imensa maioria dos trespasses ocorre de forma violenta, pois a trama se passa em um contexto de guerra. Sendo assim, poucos têm a alegria de viver até a chegada da velhice. No entanto, a aparente aleatoriedade de quem morre questiona a ideia vigente na ficção de que há justiça no término da vida. No massacre de Martin, desde a morte de Ned Stark, a incerteza ronda o leitor/espectador. Tampouco o aparente protagonismo quanto uma moralidade elevada poupam os personagens das mais hediondas tragédias.

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Um trespasse particular

A aleatoriedade é o padrão das vidas que se extinguem em Guerra dos Tronos. Entretanto, no primeiro dos livros da vasta saga de Martin há um falecimento incomum, o qual possibilita algumas reflexões voltadas a questões mais atuais em relação à morte, mas que, mesmo assim, ainda recebem pouca visibilidade

O aparente indestrutível Khal Drogo é socorrido por uma feiticeira quando, em virtude de um corte profundo na pele, sua vitalidade começa a minguar. A velha mulher versada na arte da magia foi resgatada por Khaleesi no momento em que era violentada pela quarta vez por um dos seguidores de Khal, logo após presenciar seu povo ser dizimado pelos senhores dos cavalos.

A feiticeira promete a Khaleesi que seu marido viverá. Após realizar uma série de sortilégios, não deixa de cumprir o acordo. Khal Drogo, porém, encontra-se transformado em outro ser, um homem inerte, em estado vegetativo que “Come se lhe puserem comida na boca e bebe se lhe despejarem água nos lábios.”.

Sua jovem esposa fica horrorizada em face do que tem diante de si e questiona a feiticeira a respeito do prometido. A velha diz que seu Khal está vivo, como combinado, ao que Khaleesi retruca: “– Isto não é vida para quem era como Drogo. Sua vida eram gargalhadas e carne assando numa fogueira, e um cavalo entre as pernas. Sua vida eram um arakh na mão e as campainhas tinindo nos cabelos enquanto cavalgava ao encontro de um inimigo. Sua vida eram os seus companheiros de sangue, e eu, e o filho que lhe devia ter dado.”.  A futura mãe dos dragões é incapaz de compreender tamanha ingratidão por parte da mulher que salvara. Eis a explicação que obtém:

“– Salvou-me? – cuspiu a lhazarena. – Três guerreiros já tinham me possuído, não como um homem possui uma mulher, mas por trás, como um cão possui uma cadela. O quarto estava dentro de mim quando você passou por ali. Como foi que me salvou? Vi a casa do meu deus arder, o lugar onde curei homens bons sem conta. Também me queimaram a casa, e na rua vi pilhas de cabeças. Vi a cabeça de um padeiro que me fazia o pão. Vi a cabeça de um rapaz que salvei da febre do olho morto havia só três luas. Ouvi crianças chorando quando os guerreiros as arrancaram de casa à chicotada. Diga-me lá outra vez o que salvou.”

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Por fim, comparando as próprias privações sofridas com as de Drogo em seu estado de imobilidade, conclui: “– Olhe para o seu khal e veja de que serve a vida quando todo o resto desapareceu.”

Nossa época é marcada por questões inéditas ou pouco relevantes em outros períodos históricos. Uma delas é a relação entre eutanásia e o valor da vida, quando sua qualidade não se encontra mais ao alcance de pessoas severamente doentes. A tendência da medicina ocidental contemporânea é prolongar a existência a todo custo (distanásia), por meio de aparelhos e medicamentos incapazes de devolver a saúde ao indivíduo irreparavelmente enfermo, mas que tampouco o deixam partir.

A breve passagem da obra de Martin recém citada dialoga, de forma metafórica, com tais questões. A feiticeira procede de modo semelhante à unidade hospitalar. Seus sortilégios seriam o equivalente aos recursos médicos de manutenção da vida, mesmo quando essa aparenta ter perdido o sentido. No caso do livro, manter Khal Drogo vivo é uma forma de punição encontrada pela velha por toda a violência que os seguidores do senhor dos cavalos infligiram a seu povo e a si mesma. A infinidade de mortes causadas pelos dothrakis é punida com a sobrevida de seu líder, totalmente isenta de prazeres; da mesma forma, a violência sexual sofrida pela feiticeira converte-se em vingança ao transformar Khal Drogo em uma criatura inerte, incapaz da mais leve perversidade.

Algo semelhante em termos de castigo acontece em A divina comédia, de Dante Alighieri, mais especificamente em um dos círculos do inferno destinado aos suicidas. Eis como um dos condenados descreve seu suplício:

Quando homem violento, dominado pelo furor, voluntariamente apaga sua vida, é atirado por Minos ao sétimo círculo. Cai, ao acaso, no meio da floresta, qual semente germina e se faz árvore, cuja fronde serve de pasto às Harpinas, as quais, provocando a dor, a esta abrem a janela que são os gritos. No dia do Juízo Final, como os demais iremos procurar os nossos corpos sem que deles possamos jamais revestir-nos, pois não é justo recuperar o que em vida se rejeitou. Serão arrastados para aqui e permanecerão pendentes dos galhos da árvore na qual a alma está reclusa.

Como punição pelo ato de encerrar a própria vida, os suicidas são transformados no ser vivo dotado de maior longevidade e de mais ínfima mobilidade. Em outras palavras, são agrilhoados à existência, condenados a ela e afixados a solos inférteis, seguros da impossibilidade de atentarem contra si mesmos novamente, privados de “para consigo serem carrascos”, como afirma Dante.

Por fim, apiedada pelo estado em que se encontra seu sol e estrelas, sabendo da incapacidade de alcançar qualquer um dos antigos prazeres que marcaram sua vida, Khaleesi opta por silenciar a existência de Khal Drogo, a qual já se encontrava emudecida. Seu ato representa uma forma de eutanásia, pois a vida de seu marido perdera todo o sentido, mas não podia ser desfeita por suas próprias mãos.

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O que possibilita o massacre de Martin?

O falecimento de Khal Drogo representa uma exceção ao tipo de morte que caracteriza Guerra dos Tronos. Foi uma espécie de trespasse desejado, ao menos é o que o leitor/espectador se permite presumir, pois o senhor dos cavalos nem sequer podia externar sua vontade por meio da fala, para que a mesma fosse acatada. No entanto, levando-se em conta sua antiga vida e o que a mantinha prazerosa, o esposo de Khaleesi pouco provavelmente se veria satisfeito com uma existência contornada pela inércia.

Na ficção, poucos personagens perecem com tanta freqüência quanto na obra de Martin e, quando o fazem, trata-se, em geral, de indivíduos de pouca relevância para a trama. Já o autor de Guerra dos Tronos não possui a mínima misericórdia no que tange a seus protagonistas.

Um dos fatores que permitem o imenso número de mortes de personagens expressivos – sem tirar o mérito e a ousadia do escritor – é o excesso de protagonistas presentes em seus escritos. George R. R. Martin usa a seu favor sua capacidade de confeccionar bons personagens – portanto o faz em abundância – para se permitir dar-lhes cabo sem prejudicar a trama.

Além disso, o fato de sua saga possuir diversos volumes lhe concede certo desapego no tocante a suas criações. O autor é capaz de explorá-las profundamente ao longo de milhares de páginas e depois ofertá-las em sacrifício à angústia do leitor. Algo semelhante, mas em menor grau, aconteceu em Harry Potter, no qual um bom número de personagens importantes foi morto. Todavia, a obra de J. K. Rowling conta com protagonismo mais delimitado, o que acabava tornando pouco provável certos trespasses. Diferentemente de Guerra dos Tronos em que todos podem não sobreviver à página seguinte.

Por fim, os falecimentos nos livros de Martin destoam da morte justa que marca a maior parte da ficção, mas também não envereda, de modo geral, por óbitos que evidenciem o drama da finitude humana. O grande trunfo do sangue que jorra de suas páginas reside na incerteza que permeia cada capítulo, assim como no fato de remover uma espécie de avaliação moral por parte da morte. Esta não possui preferência pelo predomínio da bondade ou da vilania, sua receptividade se estende a todos.

 

Referências:

ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

JACOBY, Sissa. Da rua Paulo ao Castelo de Hogwarts. Arquipélago, Porto alegre, n. 5, p. 43-47, abril. 2006.

MARTIN, George R. R. Guerra dos tronos. São Paulo: Leya, 2012.

RODRIGUES, José Carlos. Tabu da morte, Rio de Janeiro: Fiocruz, 2006.

 

Fonte: Homo Literatus

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