Os 10 (ou mais) livros fundamentais de ficção científica

A ciência e a arte se encontram em um dos mais característicos e cultuados gêneros da literatura: a ficção científica. Ao imaginar possíveis consequências do uso das descobertas científicas e das realizações tecnológicas na vida das pessoas, os autores se aventuram em empreitadas de futurologia ou de alegoria – e daí pode resultar uma previsão / descrição certa ou errada, mas que sempre diz muito sobre o imaginário de uma sociedade cada vez mais influenciada pela ciência e pela técnica.

Condensar, numa lista diminuta e arbitrária, um dos mais férteis e diversificados gêneros da literatura não é uma tarefa das mais fáceis – e me valerei aqui de alguma malandragem para criar um top 10 com mais de 10 livros.

Eis as obras fundamentais da ficção científica:

As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury

Hoje, depois que os relatos de sondas e jipes-robô já pintaram em nossa mente um quadro do Planeta Vermelho repleto de modorrentas planícies pedregosas, parece consenso que não há muita coisa para se ver e fazer em Marte.

O livro As Crônicas Marcianas, escrito por Ray Bradbury no começo dos anos 1950, descreve um planeta bem diferente – com rios, ruínas de cidades ancestrais e uma decadente civilização de humanoides telepatas – recebendo a visita dos primeiros exploradores e colonos terráqueos e, apesar de o cenário hoje parecer absurdo, os contos ainda permanecem instigantes e profundos.

Bradbury, apelidado de “o poeta da ficção científica”, nos conta histórias singelas, em que foguetes voam para Marte carregados de tábuas e pregos para construir as primeiras cidades, um seguidor de Johnny Appleseed percorre as planícies marcianas plantando sementes de árvores e padres missionários constroem um altar para catequizar os últimos nativos sobreviventes no Planeta Vermelho. Mas também há dramas que abrangem temas pesados como a destruição da natureza, o racismo e a guerra. As Crônicas Marcianas são uma grande alegoria da humanidade, e a moral da história traduz a ideia, presente em toda a obra do autor, de que o mundo poderia dar certo se começássemos tudo de novo, em outro lugar, com um pequeno grupo de pessoas puras.

Eu, Robô, de Isaac Asimov

A criação de máquinas inteligentes e poderosas como os robôs da ficção científica levanta uma questão crucial para a sobrevivência da humanidade: como evitar que essas criaturas, tal como o monstro do Dr. Frankenstein, se voltem contra os seus criadores?

Isaac Asimov conseguiu uma boa solução para esse dilema ao estabelecer as célebres Três Leis da Robótica:

1) Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano seja ferido.

2) Um robô deve obedecer ordens de seres humanos, exceto as que entrem em conflito com a primeira lei.

3) Um robô deve proteger a si mesmo, exceto se isso entrar em conflito com a primeira e/ou com a segunda lei.

Tais regras, escritas de modo indelével nos cérebros dos robôs de Asimov, garantem em sua obra uma coexistência harmoniosa entre seres humanos e robóticos. Em Eu, Robô, uma coletânea de contos inter-relacionados, o autor explora as possibilidades de falha das três leis e apresenta o fascinante imaginário dos cérebros positrônicos criados pelo homem – desde os primeiros autômatos rudimentares construídos para trabalhar na exploração espacial até um mundo e uma época em que os robôs estão tão antromorfizados que não podem ser diferenciados de um ser humano sem um exame demorado.

Saga Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke

Em 1968, o escritor Arthur C. Clarke e o cineasta Stanley Kubrick lançaram duas obras distintas com o mesmo nome: o livro e o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço. Os trabalhos de ambos foram feitos de forma mais ou menos independente, a partir de um argumento de Clarke baseado principalmente em seu conto A Sentinela. A premissa: uma humanidade que começa a explorar o Sistema Solar encontra, na Lua, um misterioso artefato deixado lá por uma civilização extraterrestre.

Na história de 2001, o livro, o artefato é um monolito negro que envia sinais para a região de Saturno (no filme, é Júpiter). Depois da descoberta, a nave Discovery é enviada a Saturno para investigar o destino do sinal e o computador HAL 9000, o cérebro da missão, enlouquece devido a um conflito de ordens e se revolta contra a tripulação. A moral da história, para evitar mais spoilers, é que a exploração do espaço e o contato com extraterrestres levarão a humanidade a um novo salto evolutivo, tão importante quanto aquele que, segundo o livro, foi dado muitos milênios antes, quando um monolito semelhante ao encontrado na Lua transformou uma tribo de primatas na África e deu origem ao homem.

2001 teve três sequências literárias (só a primeira delas virou filme): 201020613001. As duas primeiras se passam nas cercanias de Júpiter e narram os primeiros contatos do homem com outros seres vivos do Sistema Solar, ainda monitorados pelo misterioso monolito. A última se passa em um anel artificial construído pelo homem ao redor da Terra e constitui um desafio para o autor: como imaginar em que estágio o desenvolvimento do homem estará daqui a mil anos? E o que a enigmática civilização que nos monitora de tão longe decidirá sobre o nosso destino?

Saga O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams

Originalmente criada como uma série de rádio escrita por Douglas Adams para a BBC, a saga rendeu cinco livros: O Guia do Mochileiro das GaláxiasO Restaurante no Fim do UniversoA Vida, o Universo e Tudo MaisAté Mais, e Obrigado pelos Peixes e Praticamente Inofensiva (algumas pessoas dirão, talvez, que este último não faz parte da série, e nesse caso eu lhes pedirei, gentilmente, que vão dar um passeio pelos pântanos de Traal). Os livros fazem uma afiada crítica de costumes, apresentam um humor de alta qualidade e ainda explicam de modo singelo conceitos complicados da física e da astronomia.

No universo da obra, Arthur Dent, um inglês meio desajeitado, descobre que seu melhor amigo, o ator desempregado Ford Prefect, é na verdade um alienígena de Betelgeuse que trabalha como repórter de campo do Guia do Mochileiro das Galáxias – tudo no isso no dia em que a Terra é destruída para a construção de uma via expressa interestelar.

Eles escapam da demolição do planeta de carona na nave Coração de Ouro, um artefato movido por um motor de improbabilidade infinita e que tinha sido recém roubado por Zaphod Beeblebrox, presidente da Galáxia e primo de Ford. A bordo da nave, eles encontram a astrofísica terráquea Trillian e o robô depressivo Marvin – responsável por algumas das melhores tiradas da série.

O grupo viaja por diversos sistemas estelares e acaba encontrando a resposta para a pergunta pelo sentido da vida, salvando o Universo da aniquilação e descobrindo a verdade sobre a destruição da Terra.

Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke

Num futuro em que a humanidade colonizou boa parte do Sistema Solar, um misterioso artefato cilíndrico aparece na órbita do Sol. Uma equipe de astronautas é enviada para inspecionar o aparelho e descobre que se trata não de uma espaçonave, mas de um planeta inteiro, com um mar, cidades e criaturas vivas.

Qual é a rota de Rama e qual é o objetivo dos seus criadores? Essa é a questão que intriga os exploradores humanos, em meio a um complicado jogo de política interplanetária que opõe as colônias terráqueas do Sistema Solar.

Contos de Philip K. Dick

Philip K. Dick escreveu alguns dos mais inspiradores contos do universo da ficção científica. Vários filmes são baseados na sua obra, como Blade Runner,Minority ReportO Vingador do Futuro e O Pagamento. O futuro concebido pelo autor é distópico e pessimista, e ele dá mais ênfase à “viagem interior”, rumo à consciência e aos mistérios da mente, que às expedições interplanetárias. Seus personagens são geralmente anti-heróis drogados e problemáticos e as histórias são complexas, colocando à prova a nossa crença na realidade que nos cerca.

Algumas de suas obras mais importantes estão na coletânea Realidades Adaptadas, lançada recentemente. Também vale ler O Caçador de Androides, história que inspirou o clássico filme Blade Runner.

Vinte Mil Léguas Submarinas, de Julio Verne

Um dos precursores da ficção científica, o livro Vinte Mil Léguas Submarinas, escrito por Julio Verne no século XIX, narra aventuras em um mundo ainda hoje pouco conhecido: as profundezas do oceano. Os protagonistas são o naturalista Pierre Aronaxx, seu criado Conselho e o truculento arpoador canadense Ned Land. Durante uma expedição da Marinha americana para caçar uma misteriosa criatura que vinha afundando navios ao redor do mundo, eles caem no mar e acabam no ventre do monstro, que, descobrem, não é um animal, e sim um grande submarino elétrico.

Hóspedes/prisioneiros do enigmático Capitão Nemo, o trio viaja a bordo do Nautilus por todos os oceanos e explora a vida e os mistérios das profundezas, dos trópicos aos polos.

Neuromancer, de William Gibson

Clássico representante do gênero cyberbunk, o romance Neuromancer, de William Gibson, apresenta um mundo sujo, pecaminoso, sem heróis, típico de autores como Philip K. Dick. Anos antes da criação da internet, o livro introduz na literatura o conceito de “ciberespaço”: a  “Matrix”, um mundo virtual que pode ser acessado, via implantes neurais, por “cowboys” como Case, o protagonista.

Renegado e contaminado por uma toxina que o impede de entrar na Matrix, Case é reabilitado após ser contratado por um misterioso grupo que quer que ele invada o ciberespaço para roubar dados sigilosos. Acompanhado pela sensual guarda-costas Molly, ele mergulha num mundo de intriga de corporações e cai no jogo de uma poderosa inteligência artificial.

O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle

O livro de Pierre Boulle é menos conhecido que o filme homônimo estrelado por Charlton Heston. A história do filme, baseada no romance, aproveita o clima da Guerra Fria e o medo de uma hecatombe nuclear para mostrar como a humanidade poderia se destruir e ser suplantada por outra raça.

No livro, não há uma Estátua da Liberdade enterrada na areia, como no filme, (ops, um spoiler!), mas o conflito central é o mesmo: um astronauta chega a um longínquo planeta e lá encontra uma civilização de macacos que oprime humanos subdesenvolvidos, tratados como animais selvagens.

O romance é uma alegoria para mostrar que corremos o risco, como civilização, de valorizar mais a imitação que a originalidade e a ideia do autor é que os processos e costumes repetitivos e pouco refletidos da civilização industrial estão levando o homem a uma involução.

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

Uma das mais impressionantes distopias da literatura, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, descreve um futuro distante em que a Terra é dominada pelo Estado Mundial, onde Henry Ford é adorado como um deus (literalmente) e as pessoas não nascem mais do ventre materno e sim de linhas de montagem em que são manipuladas e condicionadas para se ajustarem a castas específicas.

Se outras distopias totalitárias apresentam um governo que oprime a sociedade pela dor, o Estado Mundial huxleyano o faz por meio do prazer. Todos os indivíduos de todas as castas, cada qual cumprindo o seu papel social específico, se sentem felizes e realizados graças aos condicionamentos por que passaram desde antes de nascer. E, em casos de depressão residual, basta tomar um comprimido de soma, a droga sem efeitos colaterais desenvolvida pelo governo para erradicar a tristeza.

Huxley faz uma descrição alegórica da sociedade de consumo, da indústria da satisfação, do fetiche da mercadoria, da erotização da infância, mostrando uma ditadura que elimina o indivíduo reduzindo-o ao hedonismo.

Fonte :  Zero Hora

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