Como todo produto cultural de grande repercussão, é lógico que a série literária e cinematográfica do bruxinho iria despertar críticas. E, mais óbvio ainda, era de se esperar que algumas comunidades religiosas se voltariam para o assunto com seus olhos preconceituosos. Afinal, qual fã de Harry Potter nunca viu algum familiar, vizinho ou amigo comentando que a série era do diabo, que fazia apologia à bruxaria, “algo estritamente condenado na Bíblia.”
Veja, leitor, não vou desprezar nenhuma moral bíblica, tampouco questionar os versículos referentes a isso. Mas devo questionar o real significado do que seria, afinal, a prática da bruxaria descrita em tal versículo. Será que o livro sagrado dos cristãos previu o surgimento de uma série literária em que o tema da magia poderia ser tratado de uma forma natural, como alternativa para apresentar as crianças e adolescentes ao universo real em que estão inseridas, só que de uma forma alternativa? E, afinal, onde está a maldade em se ler um livro que possui magias que se dividem entre boas e más? Somente um leigo no que seria Harry Potter ou um olhar exponencialmente fechado poderiam negar a visão de uma obra de tamanha luta pela conquista da moral e dos bons sentimentos do ser humano.
Enfim, vamos às candidatas à Buffy Caça Vampiros que o título fala. Antes, uma foto para demonstrar a seriedade do serviço delas:

O grupo das autoproclamadas exorcistas é formado por Bryene Larson, 18, e pelas irmãs Savannah e Tess Scherkenback, 21 e 18. O trio caça demônios (trocadilhos a nível de Praça é Nossa, pfv) tem até um documentário no canal pago BBC3 chamado “Teen Exorcists”. Mas não para por aí. O sucesso das três cristãs aparentemente gera resultados, já que seu apoiador, o reverendo Bob Larson, consegue reunir uma boa quantidade de dinheiro vendendo artigos de consumo das Exorcistas Adolescentes (título no estilo Sessão da Tarde). O sr. Larson também fatura a bagatela de 718 dólares por cada sessão particular que ministra.
E o que parece um filme da Disney com direito a atrizes bonitas e uma belíssimo musical com demônios gritando através de gargantas humanas e possuídas é, na verdade, bem sério.
Tão sério que as garotas exorcistas têm até mesmo declarado que os britânicos podem estar sendo possuídos por recitarem feitiços nos livros de Harry Potter, uma vez que a Inglaterra é um país influenciado por atividades de ocultismo. Os feitiços nos best-sellers não seriam apenas reais, como também perigosos.
“Eles vêm de bruxaria”, justifica Tess (nesse momento, eu imagino ela sussurrando a frase de forma bem dramática. Inclusive, já mandei uma cartinha de fã pro Ryan Murphy, sugerindo que ele as coloque na próxima temporada de American Horror Story. Certeza que é sucesso).
Bem, é nesse parágrafo que eu usualmente deveria fazer um comentário sobre a matéria, mas a situação é tão risível e, ao meu ver, ridícula, que não sei se merece uma argumentação séria. Tudo o que eu consigo pensar é numa versão de High School Musical com demônios tão alegrinhos que faria Monstros S. A. parecer um Bebê de Rosemary.
O que dá o tom risível à situação não é a fala de que Harry Potter é um artigo do capeta. Isso, como citei no início do texto, é comum. O problema se dá justamente no meio em que a frase foi dita. São três jovens que malemá saíram da adolescência e já alegam estar expulsando demônios de outros corpos humanos, enquanto posam para fotos e, lógico, parecem bonitas.
A problemática mora aí, também. Para a religião, a figura do demônio sempre foi emblemática. Não se trata apenas de “tirar demônios”. Se trata de uma demonstração de fé que ultrapassa os limites e, sem dúvida, seria considerada um dom tão genuinamente cristão que não viria sob cobranças de serviço ou na forma de um seriado de televisão, coisas que não se vinculam à figura bíblica que temos de Jesus Cristo.
Enfim, qualquer que seja o problema, preferi dar um tom mais irônico ao texto por não considerar a declaração, em si, polêmica. Digna de um post, sim, mas nada diferente e nenhum pouco preocupante. Querendo ou não, a série Harry Potter estará por aí, vendendo seus milhões de exemplares e espalhando a mensagem através bruxaria FICTÍCIA que não representa aquela criticada pela Bíblia em suas passagens.
Fonte: Literatortura