Feeds:
Posts
Comentários

Contar histórias é um forte do nosso povo. Adoramos nos reunir em volta de uma mesa, no quintal, na porta de casa ou de um bar e contar aquilo que sentimos, vivemos e presenciamos. É claro que, para a história não ficar insossa demais, damos um retoque aqui e outro ali, nada que faça tudo virar uma grande mentira, mas somente para dar um pouco de emoção àquilo que se conta. Narrar, desde que as narrativas se incorporaram aos homens, tem sido um hábito duplo de propagar e preservar memória. Quando se conta, se relembra, e ao relembrar cria-se um laço afetivo entre o eu que conta e o outro que ouve: agora, os dois compartilham essa história e, por isso, são ambos responsáveis por ela.

O Auto da Compadecida

Walter Benjamin, em O Narrador, fala que o ato de narrar é produto daquele que tem experiências, que faz viagens e vivencia tudo como se fosse novo, como se encontrasse sempre um novo mundo em cada canto. No entanto, o mesmo diz que a experiência da guerra, a brutal experiência da guerra, transformou o homem em um ser mudo. A violência é tamanha que os homens que viajam pela guerra voltam mudos, incapazes sequer de narrar o que viram.

No Brasil, nem a fome e a pobreza são capazes de silenciar a voz de nosso povo. A criatividade, o mundo mágico e uma rara capacidade de reinventar o cotidiano, faz do brasileiro um imenso manancial de escritas. Foi isso que percebeu Ariano Suassuna, ao escrever a famosa peça O Auto da Compadecida. Inspirada nas obras da cultura popular, com bastante influência do cordel e dos autos de Gil Vicente, Ariano criou esses dois parceiros Chicó e João Grilo, que para sobreviver à fome e à miséria acabam tornando o ato de contar histórias e enganar os outros um hábito, uma necessidade.

No entanto, o talento de ficção de Chicó é um tanto quanto peculiar. Ele inventa histórias impossíveis de cavalo bento, de pirarucu que é seu dono, de papagaio que morre de velhice ainda novo. O mundo natural e o mundo real, para ele, se misturam como em um passe de mágica. Todas as histórias se passam sempre ali por perto, mas nunca exatamente onde ele está (segundo no Narrador de Benjamin, é isso que lhe dá a credibilidade para contar, pois foi uma testemunha). Evidente que essas histórias não são críveis, nem verossímeis e assim, ninguém acredita nelas, principalmente João Grilo que, curioso, não para de interpelar o amigo. A resposta, entretanto, é sempre a mesma: “Não sei, só sei que foi assim.” Confira algumas das histórias de Chicó contidas na adaptação cinematográfica da obra:

 

- A história das Pacas

Chicó conta que viu um monte de pacas atravessando o rio, tantas, mas tantas que chegava a inclinar a água. Morto de fome, ele resolve matar pelo menos uma para comer. Assim que dispara a arma, percebe que todas elas são do Major Antônio Moraes. Para remediar o tiro, coloca a mão na frente da arma e impede a saída da bala. Como? “Não sei, só sei que foi assim.”

 

- O cavalo Bento

Dessa vez, ao falar do cachorro bento, ele diz que já teve um cavalo bento que o guiou durante 17 horas atrás de uma garrota e de um boi sem ao menos reclamar. E mais, o cavalo foi da Paraíba até o Sergipe e atravessou o Rio São Francisco! Como? É porque era bento. Mas como? “Não sei, só sei que foi assim.”

 

- A História do Pirarucu

Chicó teve um pirarucu, ou melhor, um pirarucu teve ele: Chicó enrola uma corda ao redor de seus braços e amarra um arpão nela. Consegue pegar o peixe que puxa o rapaz para a água. É arrastado três dias e três noites rio acima. Com o braço amarrado, ele consegue acenar para que as pessoas retirem-no da água. De que jeito? “Não sei, só sei que foi assim.”

 

- A Assombração do Cachorro

Chicó andava pela beira de um rio quando deixa uma moeda de 10 tostões cair no chão. Seu cachorro fica observando e começa a cochichar com alguma coisa ao seu lado, de repente, mergulha no rio e traz a moeda de volta. Quando Chicó vai olhar: só tem alguns cruzeiros. A alma do cachorro do além tem moeda trocada? “Não sei, só sei que foi assim.”

 

- O Papagaio Padre

Um papagaio sabido e esperto que lia a Bíblia junto com Chicó. Aos poucos, de tanto ler, aprendeu os sacramentos e na falta de um padre fazia os serviços da comunidade. Bicho inteligente, de sentimento nobre, pena que morreu de velhice. Mas como, se Chicó viu o papagaio nascer e eles vivem mais do que gente? “Não sei, só sei que foi assim.”

 

Fonte: Literatortura

Ele sofreu um AVC na noite de segunda-feira e passou por cirurgia. Nascido na Paraíba, ele vivia no Recife desde 1942.

Em março de 2010, Ariano Suassuna deu uma aula-espetáculo durante o Festival de Teatro de Curitiba (Foto: Lenise Pinheiro / Folhapress)

Em março de 2010, Ariano Suassuna deu uma aula-espetáculo durante o Festival de Teatro de Curitiba (Foto: Lenise Pinheiro / Folhapress)

Morreu no Recife, nesta quarta-feira (23), o escritor, dramaturgo e poeta paraibano Ariano Suassuna, aos 87 anos. Ele estava internado desde a noite de segunda (21) na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Português, onde foi submetido a uma cirurgia na mesma noite após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) do tipo hemorrágico.

A cirurgia durou aproximadamente uma hora e ele havia passado a noite bem, sendo transferido para a UTI neurológica. A operação foi feita para a colocação de dois drenos que controlariam a pressão intracraniana. Na noite de terça-feira (22), o quadro dele se agravou, devido a “queda da pressão arterial e pressão intracraniana muito elevada”, conforme foi informado em boletim.

Em 2013, Ariano foi internado duas vezes. A primeira delas em 21 de agosto, quando sentiu-se mal após sofrer um infarto agudo do miocárdio de pequenas proporções, de acordo com os médicos, e ficou internado na unidade coronária, mas depois foi transferido para um apartamento no hospital. Recebeu alta após seis dias, com recomendação de repouso e nenhuma visita.

Dias depois, um aneurisma cerebral o levou de volta ao hospital. Uma arteriografia foi feita para tratamento e ele saiu da UTI para um apartamento do hospital, de onde recebeu alta seis dias depois da internação, no dia 4 de setembro.

Na aula-espetáculo, Ariano mistura causos, informações sobre elementos da cultura popular nordestin a (Foto: Costa Neto / Secretaria de Cultura de Pernambuco)

Na aula-espetáculo que ministrou no Festival de Inverno de Garanhuns, na semana passada, mais uma vez Ariano misturou causos, informações sobre elementos da cultura popular nordestina; o grupo Arraial foi o convidado para os números de música e dança (Foto: Costa Neto / Secretaria de Cultura de Pernambuco)

Ativo até o fim
Ariano Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, em João Pessoa, e cresceu no Sertão paraibano. Mudou-se com a família para o Recife em 1942. Mesmo com os problemas na saúde, ele permanecia em plena atividade profissional. “No Sertão do Nordeste a morte tem nome, chama-se Caetana. Se ela está pensando em me levar, não pense que vai ser fácil, não. Ela vai suar! Se vier com essas besteirinhas de infarto e aneurisma no cérebro, isso eu tiro de letra”, disse ele, em dezembro de 2013, durante a retomada de suas aulas-espetáculo.

Em março deste ano, Ariano foi homenageado pelo maior bloco do mundo, o Galo da Madrugada.  Ele pediu que a decoração fosse feita nas cores do Sport, vermelho e preto, e ficou muito contente com a homenagem. “Eu acho o futebol uma manifestação cultural que tem muitas ligações com o carnaval”, disse, na ocasião.

No mesmo mês, o escritor concedeu uma entrevista à TV Globo Nordeste sobre a finalização de seu novo livro, “O jumento sedutor”. Os manuscritos começaram a ser trabalhados há mais de trinta anos.

Na última sexta-feira, Suassuna apresentou uma aula espetáculo no teatro Luiz Souto Dourado, em Garanhuns, durante o Festival de Inverno. No carnaval do próximo ano, o autor paraibano deve ser homenageado pela escola de samba Unidos de Padre Miguel, do Rio de Janeiro.

Com montagem d'O Auto da Compadecida no Rio de Janeiro, Ariano conquistou a crítica brasileira (Foto: Acervo pessoal / Ariano Suassuna)

Com montagem d’O Auto da Compadecida no Rio de Janeiro, Ariano conquistou a crítica brasileira (Foto: Acervo pessoal / Ariano Suassuna)

Obra
A primeira peça do escritor, “Uma mulher vestida de sol”, ganhou o prêmio Nicolau Carlos Magno em 1948. Ariano escreveu um de seus maiores clássicos, “O Auto da Compadecida”, em 1955, cinco anos depois de se formar em direito. A peça foi apresentada pela primeira vez no Recife, em 1957, no Teatro de Santa Isabel, sem grande sucesso, explodindo nacionalmente apenas quando foi encenada – e ganhou o prêmio – no Festival de Estudantes do Rio de Janeiro, no Teatro Dulcina. A obra é considerada a mais famosa dele, devido às diversas adaptações. Guel Arraes levou o “Auto” à TV e ao cinema em 1999.

O escritor considera que seu melhor livro é o “Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta”. A obra começou a ser produzida em 1958 e levou 12 anos para ficar pronta. Foi adaptada por Luiz Fernando Carvalho e exibida pela Rede Globo em 2007, com o nome de “A pedra do reino”.

Na década de 70, Ariano começou a articular o Movimento Armorial, que defendeu a criação de uma arte erudita nordestina a partir de suas raízes populares. Ele também foi membro-fundador do Conselho Nacional de Cultura.

Após 32 anos nas salas de aula, Suassuna se aposentou do cargo de professor da Universidade Federal de Pernambuco, em 1989. O período também ficou marcado pelo reconhecimento nacional do escritor – Ariano tomou posse na cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, em 1990.

Fonte : G1

perfumeh

A marca francesa de perfumes raros Histoires de Parfums (Histórias de Perfumes), decidiu homenagear um dos escritores mais lidos do século XX: Ernest Hemingway.

Hemingway foi interpretado através de suas múltiplas facetas de soldado, aventureiro, jornalista e escritor. Um viajante inato, essa fragrância vibrante em sua homenagem nos convida à viagem, à imaginação e à ação.

O perfume, que existe em frascos de 60 ml e 120 ml, é composto de notas de saída de bergamota italiana, zimbro e pimenta preta, seguido de notas de coração de flor de laranjeira, íris florentina e canela, finalmente com notas de fundo de baunilha, vetiver e âmbar amarelo.

 

A criação de perfumes inspirados em personagens históricos é característica da marca, que os representa através de uma vasta biblioteca olfativa. Seu fundador, o perfumista Gérald Ghislain, confessa sua vontade de contar histórias, porém, como não é um escritor, decidiu fazê-lo através dos aromas. Cada um de seus perfumes é como uma biografia, um livro aberto, repleto de sensações, sonhos e viagens imaginárias.

Os títulos dessa coleção histórica são sempre o ano de nascimento do personagem ao qual o perfume é dedicado, no caso de Hemingway, 1899.

Além de Hemingway, outras figuras importantes, tais como, Casanova (1725), Marquês de Sade (1740) Georges Sand (1804), Jules Verne (1828) e Mata Hari (1876) foram homenageados pelo perfumista. Os personagens homens inspiram as fragrâncias masculinas, e as mulheres, as femininas. Para ele, cada uma dessas personalidades e seus perfumes evoca uma ideia. A trilogia Jules Verne, Casanova e Sade, por exemplo, representa, respectivamente, a viagem, o romantismo e o erotismo.

Existem também outras edições curiosas. Por exemplo, aquelas dedicadas a lugares míticos da capital francesa, tais como o teatro Olympia e o Moulin Rouge, de título 1889, ano de fundação do Cabaret. Recentemente, a perfumaria também lançou uma edição limitada em mil exemplares chamada Make Perfume Not War, que tem parte de suas vendas revertida para projetos humanitários dedicados à ajuda de crianças.

 

Fonte: Literatortura

 

 

 

Muitos personagens têm nomes tão bacanas que a gente nem pensa na possibilidade de eles já terem sido chamados de outro jeito. Mas acontece, e muito. Antes de publicar a versão final de um livro, vários autores acabam mudando de opinião sobre os nomes de seus personagens e a gente nem fica sabendo quais foram suas ideias originais. Para acabar com um pouquinho desse mistério, essa lista mostra oito personagens da literatura que quase ficaram conhecidos com outros nomes. Você imagina como ia se chamar o Gandalf ou o detetive Sherlock Holmes? Descubra:

1. Como conhecemos: Lucy, Edmund e Susan Pevensie (ou Lúcia, Edmundo e Susana)

De onde são: da série “As Crônicas de Nárnia”, de C. S. Lewis

Como eram chamados: O único dos irmãos da família Pevensie que manteve seu nome desde os primeiros rascunhos do livro foi Peter (ou Pedro) Pevensie, o mais velho deles. Seus irmãos eram chamados de Ann, Martin e Rose. Na versão brasileira, provavelmente ficariam como Ana, Martim e Rosa. Além disso, outra mudança importante foi na ordem de nascimento: na primeira versão de “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, Peter era o mais novo.

2. Como conhecemos: Gandalf, o Cinzento

De onde é: do livro “O Hobbit” e da trilogia de “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien

Como era chamado: Bladorthin, O Cinzento. Meio sem graça, não? Mas, ao que parece, essa era a ideia original de Tolkien para esse personagem. Em notas escritas a lápis com os primeiros pensamentos sobre “O Hobbit”, o autor anotou que Gandalf seria o nome do chefe dos anões e Bladorthin seria o grande mago. Depois que mudou de ideia, Bladorthin virou apenas o nome de um rei morto que é mecionado apenas uma vez em toda a obra pra lá de prolífica de Tolkien.

3. Como conhecemos: Hermione Granger

De onde é: da série “Harry Potter”, de J.K. Rowling

Como era chamada: Acredite se quiser, o sobrenome da bruxa era “Puckle”. Mas Rowling percebeu que o nome “não era adequado a ela de jeito nenhum”. Por isso, decidiu mudar para um nome mais apropriado para a natureza séria da personagem.

4. Como conhecemos: Marvin

De onde é: da série “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams

Como era chamado: O robô depressivo era chamado de Marshall em homenagem a um amigo do autor, o comediante  Andrew Marshall. Segundo o próprio Adams, a personalidade do amigo tinha muito a ver com o andróide paranóico. Mas, pessoalmente, ainda acho que Marvin é um nome mais bacana. E vocês?

5. Como conhecemos: Artemis Fowl

De onde é: da série “Artemis Fowl”, de Eoin Colfer

Como era chamado: Nos primeiros escritos de Colfer, o criminoso adolescente Artemis se chamava Arquimedes. De acordo com o autor, ele havia escolhido esse nome porque acreditava quem um nome clássico grego daria um ar de inteligência e genialidade ao personagem. “Depois pensei que as pessoas achariam que era um livro sobre o Arquimedes”, conta. Mesmo depois da mudança, o nome continuou com inspirações gregas: Ártemis era a deusa da caça.

6. Como conhecemos: Holly Golightly

De onde é: do livro “Bonequinha de Luxo”, de Truman Capote (e do filme também, é claro)

Como era chamada: Holly, vivida no cinema por Audrey Hepburn, virou ícone cultural. Mas o que pouca gente sabe é que nas primeiras versões do livro seu nome era, na verdade, Connie Gustafson. Ainda bem que mudou, não?

7. Como conhecemos: Conde Drácula

De onde é: do livro “Drácula”, de Bram Stoker

Como era chamado: Os escritos de Stoker revelam que ele se referia ao seu famoso vampiro como “Conde Wampyr” no começo. Mas, durante sua pesquisa para o livro, ele acabou encontrando um Vlad Dracul. Ficou tão intrigado com o cara que mudou o nome de seu personagem principal.

8. Como conhecemos: Sherlock Holmes e John H. Watson

De onde é: da série “Sherlock Holmes”, de Sir Arthur Conan Doyle

Como era chamado: Assim como outros autores aqui da lista, as anotações deixadas por Conan Doyle indicam que ele considerou o nome “Sherringford” para o famoso detetive. Além disso, o assistente de Holmes originalmente se chamaria “Ormond Sacker”. Mas parece que o escritor decidiu que era um nome estranho demais e mudou para John H. Watson. (Já o nome de Sherlock continuou estranho…)

Fonte: Superinteressante, Via mental_floss

“Dupla delícia, o livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.” A frase do escritor gaúcho Mário Quintana fala da sensação de companhia proporcionada pela leitura. Entretanto, as vantagens de um bom livro não param por aí, aponta um novo estudo publicado na edição de hoje da revista Science. Segundo a pesquisa, a literatura pode ajudar no relacionamento com outras pessoas, ajudando o leitor a interpretar melhor as emoções alheias. O trabalho aponta ainda que não é qualquer tipo de obra que provoca esse efeito. Segundo os experimentos conduzidos durante a investigação, os livros de leitura mais “fácil”, que costumam integrar as listas de mais vendidos, não ajudam no aprimoramento da habilidade social.

Emanuele Castano, professor associado do Departamento de Psicologia da New School for Social Research em Nova York e um dos autores do estudo, explica que o objetivo inicial do trabalho era tentar desvendar como funciona um conceito da psicologia denominado teoria da mente, a habilidade humana de inferir os pensamentos e as emoções de outras pessoas. “Os seres humanos são claramente propensos a ter essa capacidade, mas argumentamos que ela também é afetada pelas práticas culturais”, diz o pesquisador. A partir da noção de que a prática pode aumentar a capacidade de interpretar o outro, Castano e seu colega David Kidd decidiram investigar o efeito dos livros sobre a teoria da mente. “A leitura pode ser uma experiência poderosa. Nosso objetivo era expandir o que conhecemos sobre o efeitos dessa prática em nossas mentes”, completa Kidd.

Para isso, eles criaram um experimento em que voluntários leram diferentes tipos de texto, classificados como ficção literária, ficção popular e não ficção. As obras do primeiro grupo eram finalistas ou vencedoras da edição de 2012 do The PEN/O. Henry Prize, importante concurso de contos dos Estados Unidos. Os trabalhos de ficção populares foram retirados da lista de best-sellers do site de vendas Amazon, e os de não ficção eram artigos retirados da revista americana Smithsonian Magazine. Para realizar uma comparação mais abrangente, os pesquisadores também testaram voluntários que não leram nenhuma publicação.

Fonte: Correio Braziliense

bronte

Muito é dito quanto à importância das irmãs Brontë para a consolidação do papel da mulher, senão na sociedade, ao menos na literatura. E se o conceito de feminismo for aquele contido na famosa frase (quase uma máxima, na verdade): “Feminismo é a ideia radical de que mulheres são pessoas”, as obras dessas três irmãs inglesas são perfeita e definitivamente feministas.

No entanto, a abordagem de cada irmã da figura feminina configura ideias muito diferentes quanto ao papel que lhe deveria caber em um mundo totalmente masculino; abordagens essas que refletem claramente a personalidade de cada uma delas, feministas por si só. E as nuances descritas por Charlotte, Emily e Anne demonstram, possivelmente, gradações do ideal feminista, mas acima de tudo, a infinidade de vidas que uma pessoa – homem, mulher ou alienígena – pode viver enquanto existir. Não é à toa que as diversas personagens femininas escritas por elas representam mulheres e pessoas muito distintas, quase sempre fugindo ao estereótipo tanto de boa moça submissa e “prendada” (existe adjetivo pior que esse?) quanto de feminista radical.

Primeiramente, temos de longe a mais dramática e romântica das três, Emily, e a menos obviamente feminista. Sua obra única, “O Morro dos Ventos Uivantes”, ambienta-se numa aura gótica, no limiar da insanidade e, quase, da psicopatia. O amor doentio entre a menina rica Cathy (Catherine Earnshaw) e seu irmão adotivo Heathcliff pode não ser especificamente libertador, mas representa, no mínimo, uma relação de igualdade entre seus egos e personalidades; não há um homem superior e uma mulher submissa, nem o estereotipado casal inverso, em que a excêntrica e libertina mulher funciona como uma “Maniac Pixie Dream Girl” para o homem se descobrir na vida.

[*Maniac Pixie Dream Girl é um arquétipo em que a personagem feminina serve somente como instrumento para que o personagem masculino que é seu par romântico cresça como indivíduo e aproveite as infinitas possibilidades que a vida lhe oferece, como Kirsten Dunst em “Tudo Acontece em Elizabethtown” e Zooey Deschanel em “(500) Dias com Ela” e “Sim, Senhor”.]

Pelo contrário, temos em Heathcliff e Catherine duas personagens de caráter muito expressivo e violento em suas paixões, e que se tratam como iguais durante toda a narrativa, sempre se enfrentando mutuamente. Já as convenções sociais são representadas pelo marido de Cathy, Edgar Linton, o bom moço por natureza, que é a todo momento desafiado por um dos outros dois, mais intensos. A filha de Cathy, também Catherine, apresenta-se como uma personagem igualmente interessante do ponto de vista do feminismo: impetuosa e teimosa, mas, ainda assim, meiga e inteligente, a menina passa por terríveis acontecimentos e provações, sem de fato ser vista de forma inferior pelas outras personagens. Talvez o nível de insanidade seja tão absurdo que não haja muito espaço para se julgar se a mulher estava fazendo o que necessariamente deveria segundo a etiqueta vitoriana, mas o fato é que, no microcosmo isolado daquelas charnecas, as mulheres rebelam-se contra seus maridos e irmãos, e contra a própria moral, procurando sempre seu bem-estar e daqueles que amam, independente de quem possam atingir. Mesmo pertencendo ao ápice da atmosfera romântica, elas dificilmente encaixam-se no perfil da lânguida e virtuosa virgem adorada, mas têm dentro de si o mesmo potencial para sentir que qualquer personagem masculino de toda a literatura que lhes é anterior.

Em segundo lugar, encontramos a obra-prima de Charlotte, “Jane Eyre”. Considerado um dos maiores clássicos da Literatura em língua inglesa, o romance narra a vida de Jane Eyre, uma órfã, maltratada pela tia e pela vida, que sai de um colégio interno para trabalhar como governanta para a criança do misterioso Sr. Rochester. Dona de uma religião e filosofia próprias, ela logo encanta o obscuro patrão, que se apaixona brutal e loucamente por ela.

Jane tem, sim, seu lugar cativo na lista de personagens femininos feministas, mas nota-se seu claro controle pelo Sr. Rochester e seus momentâneos complexos de inferioridade, nos quais é esvaziada de sua vivacidade por uma obediência sem questionamentos. Além disso, é a mulher independente e ideal em todos os sentidos, boa e altruísta, sem quaisquer desvios de caráter ou conduta que a façam digna de repreensão. A moça acaba perdendo, dessa forma, um pouco de sua humanidade para ser justamente o autômato que afirma não ser. Ainda assim, a jovem não aceita que seus boníssimos e puros sentimentos sejam objeto de manipulação por terceiros, o que é evidenciado em uma das mais famosas citações do livro, quando Jane revela o que sente pelo patrão:

“Acha que, só por ser pobre, obscura, feiosa e pequena, sou uma pessoa sem alma e sem coração? Tenho tanta alma quanto o senhor… e muito mais coração! E se Deus me tivesse presenteado com mais beleza e fortuna, eu teria feito com que fosse tão difícil para o senhor me deixar quanto é para mim deixá-lo. Não me dirijo ao senhor agora através de normas e convenções, nem mesmo através de carne mortal. É meu espírito que se dirige ao seu. Como se ambos tivessem cruzado o limite da morte e estivéssemos, aos pés de Deus, como iguais… que é o que somos!”

A passagem revela algo de muito interessante na história, completamente diferente do que acontece nas obras de Anne e Emily: a autora imbui à personagem um feminismo e uma noção de igualdade dos quais a mocinha é plenamente consciente, ainda que de forma quase metafísica. E esse é o diferencial dessa obra, a consciência de que a todo momento a mulher esbarra em convenções e normas sociais, mas que deve ter a coragem de superá-las.

Outro dado interessante que pode ser retirado do trecho acima é a questão financeira: para Charlotte, e também para Jane, a fortuna parece ser aquilo que confere à mulher a independência que lhe é negada pela sociedade. Tanto que Jane só tem um final feliz quando recebe uma farta herança e passa a ser, finalmente, igual ao Sr. Rochester em posição social, como já o era antes em espírito.

Por fim, a última e menos conhecida das irmãs Brontë é Anne, que já pertence ao movimento literário do realismo e difere de suas irmãs de todos os modos possíveis. (Um fato interessante – e um tanto detestável – é que Charlotte ficou tão chocada com a obra da irmã que não permitiu que fosse publicada novamente após a morte de Anne.).

“A Moradora de Wildfell Hall” é a mais crua e, definitivamente, a mais feminista história de toda a obra das três, desmascarando sem grandes eufemismos a hipócrita sociedade inglesa no século XIX. Narrado de forma não-linear, inicialmente pelo ingênuo Gilbert Markham proprietário de terras apaixonado pela segunda narradora, Helen Huntingdon, o livro conta a história de uma mocinha que fez todas as escolhas erradas. Pois é. Isso mesmo: todas as escolhas erradas.

Helen é uma moça órfã e religiosa, sensível e de moral irrepreensível, e, ao começar a viver em sociedade, apaixona-se pelo belo Arthur Huntingdon, que corresponde aos seus sentimentos. A despeito do que todos os seus familiares pensam sobre o caráter do homem por quem se apaixonou, Helen não cede e se casa, começando nesse momento a primeira prova do feminismo que permeia a obra. E, pela primeira vez em um romance de costumes desse tipo, temos uma história que começa com um casamento, não o contrário, e que vai aos poucos revelando a verdadeira face de muitas uniões daquela época – e, infelizmente, de hoje ainda. Casada e apaixonadíssima, então, Helen vive alguns meses de verdadeiro idílio conjugal, até que seu filho nasce e seu relacionamento com o marido começa a esfriar. Cada vez mais distante, em visitas cada vez mais demoradas a clubes londrinos, Arthur vai se tornando irreconhecível aos olhos da afetuosa esposa, que o descobre alcoólatra e adúltero.

Diante de tal descoberta, Helen literal e metaforicamente bate a porta na cara do marido, fato que escandalizou a crítica e os leitores (sem falar de Charlotte) à época em que o romance foi publicado. Segundo a romancista May Sinclair “Helen batendo a porta do quarto na cara do marido reverberou por toda a Inglaterra vitoriana – e continua reverberando para os leitores atuais.”. Afinal, quantos hoje ainda não acreditam na supremacia de um dos lados no casamento? Quantos relacionamentos abusivos ainda são mantidos por medo da reação de um dos parceiros?

Helen, então, muito à frente de seu tempo, depara-se com a necessidade de fugir e, ignorando qualquer convenção vigente, foge. Com suas economias provenientes do trabalho como pintora e uma criada de confiança, em uma Inglaterra cujo divórcio era permitido apenas ao homem, a mulher escapa para salvar seu filho dos vícios que corrompiam e ainda corrompem a sociedade ao redor do mundo, e começa a viver reclusa em uma pequena cidade do interior, onde conhece o primeiro narrador, Gilbert.

Como disse certa vez um professor que tive, é possível ver a história ali, sangrando como carne viva. É um romance muito, muito mais verdadeiro ao que acontece de fato na vida que quase qualquer outro, sendo todas as idealizações postas abaixo pelas descobertas de Helen de que a sociedade vive por trás de máscaras e reticências que omitem a tensão e a imoralidade existentes por sob os panos. E a ruptura com essa hipocrisia revela à personagem e a todos os leitores que é possível lutar pela igualdade de direitos sem que, necessariamente, sutiãs sejam queimados.

Helen esta aí para provar que nós temos direito à escolha, a qual tanto pode ser errada como pode ser certa, mas que também temos direito ao erro e à possibilidade que ele traz consigo de se acertar em uma próxima tentativa. Sim, foi muito bom que Elizabeth Bennet tivesse acertado em sua escolha com o *cof* invejável *cof* Sr. Darcy logo de primeira, mas se ela tivesse, afinal, se casado com o Sr. Wickham, isso não teria sido sua ruína, pois um final feliz, piegas que isso pareça, não depende obrigatoriamente de um começo sensato.

Feminismo significa igualdade e liberdade, entre quem quer que seja, e Helen pouco se importa se o que está fazendo é feminista ou não – o que ela quer é a liberdade de, arcando com as consequências de suas escolhas, poder desvencilhar-se dos problemas para não ficar eternamente comprometida por um único desvio de percurso. Assim como Arthur desvencilhou-se dela afogando-se na bebida e em sua amante, Helen também quer o igual direito de poder mudar, e o faz, a despeito do que a sociedade pudesse pensar, e sabemos que pensa. Mas, afinal, se fizermos uma pausa para ponderação, por que isso importa?

E se feminismo é liberdade e igualdade, também somos todos livres para escrever, sobre o que quisermos. E é provavelmente quanto à escrita que resta o maior legado das irmãs Brontë, que desafiaram o machismo imperante à sua época para publicar ao mundo suas obras de manifesto à liberdade, simplesmente.

Fonte: Literatortura

book_web

Cada nova mídia que surge é candidata a matar os livros, ou o interesse geral pela literatura. Pode ver, parece replay de gol em final de copa de mundo, tamanho a quantidade de vezes que este fato é repetido pelas más línguas.

Mas a realidade é bem diferente. A internet é prova disso.

Nenhuma ferramenta publicitária poderia ter o alcance que a internet obtém. Mesmo quando se repetem as táticas de marketing na venda de produtos, como os descontos, a rede oportuniza que várias pessoas estejam falando sobre aquela ação, permitindo um “boca a boca” muito eficiente e em nível global.

Mas de que forma isso influencia os escritores?

Bem, digamos que através duma migração. Blogueiros saem da internet para as editoras. E para isso nem é preciso citar Eduardo Spohr – sucesso com seus livros sobre anjos, primeiramente vendidos no site do Jovem Nerd, antes de chegar a uma grande editora. Há inúmeros outros exemplos, como Affonso Solano, que recentemente lançou o livro O Espadachim de Carvão, e Felipe Neto, com Não Faz Sentido – Por Trás da Câmera, ambos pela Casa da Palavra.

Entenda, o que está em discussão aqui não é a qualidade literária, e sim a migração de um meio para outro.

Outro nome que surgiu, neste sentido, foi o de Laísa Couto, denotando uma nova possibilidade que a internet propõe. No dia 31 de outubro – sim, propositalmente, no Halloween –, Laísa divulgou nas redes sociais que sua booksérie, Lagoena, história de ficção fantástica, será publicada em livro pela Editora Draco.

Mas o que seria uma booksérie?

Na realidade, o formato remete aos romances de folhetins, que eram publicados diariamente nos jornais, ou seja, em capítulos. A versão virtual deste modelo é a booksérie, com a variação, obviamente, de ser publicada na internet.

Usando deste meio, entre outubro de 2011 e maio de 2013, Laísa Couto publicou os capítulos de Lagoena no site BookSérie, além de correr atrás de divulgação em blogs literários, alcançando assim novos leitores.

“O principal para ter escolhido este caminho para Lagoena foi perceber como é difícil um autor iniciante entrar no mercado editorial logo de primeira. Li muitos depoimentos sobre isso, o exemplo maior é a preferência das editoras acolherem ‘autores iniciantes’ que têm ‘plataforma’. Então, seguindo essa dica, eu fui atrás da minha”, disse Laísa ao Homo Literatus, quando perguntada sobre ter feito esta opção de publicação por achar difícil conseguir uma editora.

O contato da escritora com a Editora Draco aconteceu depois de o livro passar por vários tratamentos. Laísa contratou uma preparadora de textos profissional, ato que geralmente acaba acontecendo somente depois que o livro chega à editora. Depois disso, ela afirmou se “sentir segura” para apresentar seu texto à Draco. Sua história com tom levemente sombrio teve um final feliz, ou um começo, pelo menos no plano editorial.

Quando perguntamos a ela se valeu à pena o esforço, a jovem escritora respondeu: “Valeu, sim e faria tudo de novo. [...] Aprendi muito com o livro sendo publicado em formato de série virtual, acho que é uma experiência que nunca teria se tivesse percorrido o caminho tradicional. Se não tivesse feito, teria ‘quebrado a cara’. [...] No final, acabou funcionando para mim, pensei em desistir, mas insisti, e Lagoena será publicada por uma boa editora”.

Há inúmeros exemplos desta migração da internet para as editoras. Enquanto uns ficam a profetizar o fim do livro, ele acha suas formas e se adapta, vencendo o tempo e garantindo seu espaço.

Fonte: Homoliteratus

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 5.835 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: